Tem dias que o mundo acorda de lado.
O vento sopra torto, o café esfria rápido, o olhar foge do espelho.
E tem outros em que até a respiração parece música.
Alguém pensa em fazer algo incrível.
Alguém, logo em seguida, cochicha que é besteira.
E os dois moram na mesma cabeça.
Às vezes, parece cena de teatro,
um lado querendo salvar o planeta,
o outro só querendo sumir da reunião.
Tudo ao mesmo tempo. Tudo dentro.
Um passo pra frente, dois pra trás.
Depois, três pra cima, uma dança estranha que ninguém vê.
Só quem sente.
Às vezes dá raiva.
Às vezes dá vontade de rir.
E às vezes, as duas coisas juntas, num riso meio torto, meio choro.
Tem gente que fala com os próprios pensamentos como se fossem colegas de quarto.
Outros brigam com o espelho.
Alguns só apertam o travesseiro.
Tem hora que o silêncio pesa mais que o barulho.
Tem hora que o coração dispara por quase nada.
E tudo isso… passa. Ou fica. Ou muda de roupa.
No fundo, não tem regra.
Tem dia que uma respiração funda resolve.
Tem dia que nem dormir adianta.
E tem dia que só um abraço imaginário dá conta do recado.
Ninguém tá sempre bem.
Mas às vezes, mesmo com tudo torto, a luz entra de lado e ilumina só o suficiente pra continuar.
Tem quem chame isso de equilíbrio.
Tem quem chame de loucura mansa.
Tem quem nem dê nome.
E tá tudo certo. Ou quase.
O importante, talvez,
é saber que esses anjos e demônios aí dentro
vivem em mais gente do que se imagina.
Uns brigam.
Outros conversam.
Alguns dançam.
E seguem...