Eu nasci no meio do barulho,
prédio alto, rua de asfalto,
infância de bola na rua ou no play
e pipa cortando o céu da cidade.
Mas a poesia…
ah, a poesia sempre quis um quintal.
Desde 97, a vida me trouxe pra cá.
Itaboraí virou minha raiz.
Num sítio de muito espaço e sossego,
onde o tempo respira,
e a alma também.
Aqui não tem galinha, mas tem Mingau (a gata)
e Billy, meu amigo de quatro patas.
Tem limão que perfuma,
Manga que despenca,
urucum que pinta o chão de vermelho.
Tem bananeira dizendo "bom dia",
e goiabeira servindo lanche.
Acerola, jaboticaba,
laranja que vira suco no sorriso da Luma.
É… tem a Luma também.
Minha neta que corre descalça,
que pergunta da lua com aquela cara de quem
ainda acredita nas mágicas do mundo.
— Vô, por que a lua tem mancha?
— Porque até a lua é meio imperfeita,
e mesmo assim clareia a noite.
Aí eu percebi:
a poesia mora bem aqui,
entre uma fruta madura
e uma dúvida de criança.
Pachamama? Sim, eu conheço.
Não de livro,
mas de sujar a mão de terra
e colher tomate selvagem sem pedir licença.
A poesia não mora só na palavra bonita.
Ela mora onde tem verdade,
onde o chão é firme e o riso é solto.
Mora na lembrança do asfalto
e na festa que virou meu quintal.
Eu sou filho da Terra,
mesmo que tenha nascido no cimento.
Porque um dia plantei minha vida
e ela brotou aqui.