Há dias em que estar só
é um abraço que vem de dentro,
um silêncio que não pesa,
mas dança comigo no compasso do vento.
Sinto a saudade como um sabor raro,
não para sofrer,
mas para lembrar que há caminhos,
rostos, histórias que me formam.
No sítio, em Itaboraí,
o canto dos pássaros é meu relógio,
e o cheiro da terra molhada
me ensina a respirar devagar.
Depois, sigo andando por aí,
no mar que me leva,
no ar que me veste,
numa aldeia que guarda segredos antigos.
No Abrão, no Pontal, em Araçatiba,
ou nas curvas mansas da Enseada,
o horizonte sempre me chama
para ser aprendiz do instante.
Trabalhando, ou só olhando o visual,
descubro que o mundo é um espelho quebrado:
cada pedaço reflete um eu diferente,
e é nessa colcha de retalhos que me encontro.
Viver o agora é um ofício,
um jeito de colecionar instantes
que nunca se repetem.
Porque a vida, no fundo,
é quase sempre nada igual.