Tinha uma sombra no meu quarto
quando eu era moleque.
Ficava ali, atrás da porta.
Nunca me encostou,
mas me deixava inquieto.
Na época, achei que era bicho.
Hoje sei: era só um pedaço meu
que eu ainda não sabia nomear.
Sombra é isso.
É o que a gente esconde,
mas não some.
É o que ficou atravessado
lá atrás,
esperando um pouco de coragem
pra sair do escuro.
Ela aparece nas dúvidas,
nos “e se”,
nos “e se der errado?”.
E ela adora palco quando a gente tá prestes a tentar algo novo.
Já tentei fugir dela.
Mas cansei.
Agora, quando ela aparece,
eu olho de frente.
E pergunto:
“O que você quer me mostrar hoje?”
Sombra não é inimiga.
É parte do pacote.
É o medo que alerta.
O erro que ensina.
A dor que sussurra:
“Vai, mas vai com mais consciência.”
E olha só,
ela só aparece com luz.
No escuro total, ela some.
Então se tem sombra,
é sinal de que eu tô brilhando de algum jeito.
Aprendi a usar isso.
Transformar o incômodo em direção.
O tropeço em passo novo.
A sombra em força.
Hoje, não luto contra ela.
Convido pra andar do meu lado.
E digo:
“Bora comigo.
Você não vai me parar.
Vai me guiar.”