um trap pedagógico para cem linguagens e outros bichos
Eu vim falar de educação
mas antes
vamos deseducar.
Deseducar a fila.
A resposta pronta.
O silêncio valendo nota.
A criança sentada
esperando alguém autorizar
a curiosidade.
Malaguzzi passou por aqui
com umas cem linguagens no bolso e nenhuma cabia
na prova de múltipla escolha.
Reggio Emilia perguntou e se a escola escutasse?
O Brasil respondeu,
depende...
tem formulário?
Então eu cheguei.
Com uma mochila cheia de PPP,
post-it, barbante,
canetinha sem tampa,
metodologia ativa,
um Arduino imaginário
e uma mania perigosa,
perguntar
por quê?
PPP!
Não é
Papel
Parado
na Pasta.
É Projeto.
É Político.
É Pedagógico.
É gente decidindo
que gente
quer ajudar a formar.
Então mexe.
Remexe.
Desmonta a reunião pedagógica.
Professor não é pendrive
pra alguém chegar na formação e fazer download
de cinquenta slides.
Professor pensa.
Cria.
Erra.
Refaz.
Professor também tem
cem linguagens.
Tem professor que aprende falando.
Outro construindo.
Outro rabiscando.
Outro discordando de mim.
Ainda bem.
Porque formação sem desconforto é palestra com cafezinho.
E eu gosto do cafezinho.
Mas gosto mais quando alguma certeza cai da cadeira.
Ciências!
Bota a mão.
Cheira.
Mistura.
Pergunta.
Explode não.
Ou explode pequenininho
e com protocolo de segurança.
Maker!
Se não tem laboratório
tem papelão.
Se não tem impressora 3D
tem tesoura.
Se não tem robô
tem invenção.
Se não tem tomada...
programação desplugada.
Código no chão.
Algoritmo com gente.
Um passo pra frente.
Dois pra esquerda.
Repete três vezes.
Bugou?
Maravilha.
Nasceu uma aula.
Gamifica.
Ramifica.
Prototipa.
Problematiza.
Mapeia.
Investiga.
Colabora.
Mas pelo amor de Paulo Freire
não pega uma aula chata
e coloca pontinho, medalha
e ranking em cima
achando que virou inovação.
Inovação não é purpurina
em metodologia velha.
É mudança de lógica.
É o aluno deixando de perguntar,
Professor, vale ponto?
e começando a perguntar,
Professor...
e se a gente fizer diferente?
Aí ferrou.
No melhor sentido.
Porque nasceu projeto.
Nasceu hipótese.
Nasceu autoria.
Nasceu ciência.
Nasceu aquele brilho no olho
que nenhum indicador
consegue colocar inteiro
numa planilha.
E no meio dessa fauna pedagógica aparece a CNV.
Outro bicho estranho.
Observação.
Sentimento.
Necessidade.
Pedido.
Traduzindo,
antes de responder atravessado
respira
e tenta descobrir
o que existe atrás da fala.
Porque escola também é conflito.
Professor cansa.
Diretor enlouquece um pouquinho.
Coordenador segura oito pratos,
três famílias,
dois projetos
e uma impressora
que misteriosamente
só engasga em dia de conselho.
Educação é isso.
Gente.
Gente ensinando gente
enquanto aprende a ser gente.
Reggio Emilia de um lado.
Brasil do outro.
E no meio
não existe ponte pronta.
Tem que construir.
Com escuta.
Com contexto.
Com barro.
Com tecnologia.
Com cultura.
Com território.
Com criança.
Com professor.
Com comunidade.
Com cem linguagens
e outras cem
que Malaguzzi nem teve tempo de conhecer.
Podcast.
Scratch.
Robótica.
Inteligência artificial.
Meme.
Vídeo.
Stop motion.
Horta.
Cordel.
Trap.
Slam.
E aquele menino lá do fundo
que não abre o caderno
mas desmontou o ventilador
e montou de novo.
Talvez ele estivesse estudando.
Só esqueceram
de perguntar.
Por isso eu continuo entrando
em escola,
secretaria,
sala de formação,
auditório,
roda de conversa,
levando método
e voltando com perguntas.
Porque depois de tantos anos
trabalhando com educação
descobri uma coisa perigosa
eu não treino professores
para terem respostas.
Eu cutuco professores
para produzirem perguntas melhores.
E quando isso acontece
o PPP sai da gaveta.
A ciência sai do livro.
A inovação sai do PowerPoint.
O maker sai do laboratório.
A programação sai do computador.
A comunicação deixa de ser violência.
O projeto deixa de ser tarefa.
E a escola...
ah, a escola...
começa a ficar um pouco
menos escola.
E muito mais mundo.
Deseduca.
Desarruma.
Desaprende.
Pergunta.
Escuta.
Cria.
Porque talvez
a maior metodologia ativa
ainda seja essa
gente ativa
diante da vida.
Menos espera.
Mais movimento.
Menos receita.
Mais descoberta.
Menos “sempre foi assim”.
Mais
e se a gente fizer diferente?
Porque educação
quando é viva
não prepara a gente
para assistir ao mundo.
Prepara a gente
para mexer nele.
E, quem sabe,
fazer a vida
desabrochar.